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Religiosidade

Uma das principais características dos ucranianos é a religiosidade. A maioria dos ucranianos no Brasil são católicos do rito oriental e uma pequena parte é de ortodoxos, o que difere-se da Ucrânia, onde a maioria dos fiéis segue o rito ortodoxo. Na comunidade de Roncador o rito mais seguido é o oriental.

O rito oriental está em plena comunhão com o papa, ou seja, são as igrejas cristãs surgidas a partir das províncias orientais do Império Romano, caracterizadas por uma multiplicidade de tradições e ritos litúrgicos, sendo predominante a tradição bizantina e seu rito correspondente, também chamado de rito bizantino, pode significar um rito litúrgico.

“A liturgia bizantina, da qual a ucraniana é um ramo, tem origem na de Jerusalém, de São Tiago, reformada por São Basílio Magno e abreviada por São João Crisótomo, no século IV. Foi logo aprovada pela Igreja, sendo seguida até hoje por grande número de cristãos do Oriente e pelos fiéis do rito ucraniano, o qual é todo celebrado na língua ucraniana" (BORUSZENKO, 1969, p.431).

As cerimônias da missa são cheias de simbolismo, um dos que mais chama a atenção na liturgia é o celebrante, pois este é considerado como o guia, o pastor que caminha diante do rebanho para conduzir os fiéis para as fontes de graça e da salvação, por isso o mesmo celebra a missa de costas para o povo. (CIUPA, 2002).

Celebração litúrgica ucraniana do rito bizantino.

A Igreja ucraniana para reviver importantes acontecimentos da história da criação e redenção do homem, apresenta uma ordem de tempo de celebrações destes mistérios, tendo no mínimo 10 principais "dias santos" durante o ano, celebrações estas sempre rezadas e cantadas na língua ucraniana.

Desde a chegada dos imigrantes até hoje, a principal fonte de preservação e ensinamentos religiosos na comunidade São Nicolau é a catequese. A catequese faz parte da ação evangelizadora da Igreja que envolve aqueles que aderem a Jesus Cristo. Catequese é o ensinamento essencial da fé, não apenas da doutrina como também da vida, levando a uma consciente e ativa participação do mistério litúrgico e irradiando uma ação apostólica. Segundo o Documento de Puebla (1979) e a afirmação dos Bispos do Brasil, a catequese é um processo de educação da fé em comunidade, é dinâmica, é sistemática e permanece.

A catequese é ministrada aos sábados pelas Irmãs Servas de Maria Imaculada, como também por catequistas leigas. Além da parte religiosa elas disponibilizam à comunidade vários cursos com a finalidade de aproximar os participantes de costumes e hábitos do país de origem, entre eles, estão a língua, a dança, a arte e a culinária. Bem como, há a oferta de cursos de língua ucraniana como forma de manutenção e divulgação da língua.

Artesanato

O artesanato ucraniano tem raízes nos hábitos agrários e é representado pelos bordados e pinturas de desenhos seculares, cerâmica, entalhe em madeira, tecelagem, xilogravura, pintura de bonecas e de ovos típicos, as famosas pêssankas, importantes elementos da cultura que ainda conservam inúmeras características bizantinas.

Um dos principais ícones do artesanato ucraniano são as pêssankas, “conta-se que os povos na era pagã decoravam ovos para dar as boas-vindas ao sol, festejando a primavera para assegurar fertilidade ao homem, á terra e aos rebanhos: A pêssanka simbolizava, assim, o renascimento da terra na primavera” (ZANELATTO, 2013, p.01).

Pysanky, pysankla e pêssanka são palavras que derivam da palavra ucraniana “pessaty,” que significa escrever. A arte de colorir os ovos ficou assim denominada pelo fato de ser expresso algo por meio dos desenhos, das formas e das cores utilizadas. Dar uma pêssanka é dar um presente simbólico da vida, pois o ovo em sua simbologia deve renascer por inteiro, além disso, cada um dos desenhos e das cores na pêssanka é considerado ter um significado profundo. Tradicionalmente, os desenhos são escolhidos para combinar com o caráter da pessoa a quem a pêssanka será dada como presente. (CIUPA, 2002).

“Há indícios de que os ucranianos produziam pêssankas desde 3.000 a.C., com ferramentas rústicas e desenhos não tão elaborados como os de hoje em dia. Como os ucranianos veneravam a natureza, antes da conversão ao cristianismo, na Festa da Primavera ofereciam presentes ao deus Dajbóh, equivalente a Apolo, e entre eles sempre se encontravam pêssankas. Quando o príncipe Wolodymir adotou o cristianismo como religião oficial do país, o clero adaptou a arte dos ovos decorados à nova realidade e eles passaram a ser uma tradição de Páscoa” (MICHALZECHEN, 2013, p.01).

A pêssanka é feita, tradicionalmente, durante a última semana da Quaresma, que é festejada no calendário católico e ortodoxo. Os ovos pintados são levados então á Igreja na celebração no sábado de aleluia, para serem abençoadas pelos sacerdotes, estes ovos carregam as camadas mais profundas do misticismo religioso para os ucranianos, acreditam que ao ofertar ou receber um pêssanka esta tráz consigo fortuna, prosperidade, saúde e proteção, considerada como um talismã de proteção e não apenas um elemento decorativo. (CIUPA, 2002).

Dona Maria Bodnar integrante da comunidade São Nicolau de Roncador –PR na confecção de pêssankas.



REFERÊNCIAS

ARROYO, M, G. Depoimento. Revista Educação em Revista UFMG, v. 1, n. 32, p. 25-42, set. 1994.
BORUSZENKO, O. Os ucranianos. In: Boletim informativo da casa Romário Martins. 2. ed. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v. 22, n. 108, out. 1995.
_______. Caderno estatístico do município de Roncador. Roncador: Prefeitura Municipal de Roncador. Livreto impresso, 2016.
CIUPA, E. Roncador terra da fé. Livreto impresso, 2002.
HORBATIUK, P. Imigração Ucraniana no Paraná. Porto União: Uniporto, 1989.
PREFEITURA DE RONCADOR. História, pioneiros e atualidades. Roncador: Prefeitura Municipal de Roncador. Livreto impresso, 1986.
ZANELATTO, C. Quando Os Padrões São Símbolos. Revista Clichê, v. 1, n. 23, p. 1-14, jun. 2013.



Autora: Ana Flavia Slobodjan dos Santos

Acadêmica do 4º ano do curso de Fonoaudiologia da UNICENTRO – Campus/Irati – PR

Participou como orientanda voluntária da Profª . Drª. Loremi Loregian-Penkal (DELET/Irati) com o projeto intitulado “A cultura ucraniana e sua trajetória no município de Roncador – PR”, nos anos de 2015 e 2016, trabalho pertencente ao Programa Institucional de Iniciação Científica - PROIC, da UNICENTRO,  tendo como apoio a Fundação Araucária.

A imigração ucraniana no Brasil

No Ocidente, os ucranianos são calculados em cerca de 2 milhões. Destes 150 mil vivem no Brasil, e 120 mil habitam no Paraná. Os primeiros imigrantes ucranianos chegaram ao Paraná a mais de 100 anos, por volta do século XIX, inicialmente localizaram-se na zona sudoeste do Estado, cujo clima para os europeus é favorável. No Brasil houve duas grandes levas imigratórias da Ucrânia, a primeira nos fins de 1895 que foi até o ano de 1930 e a segunda após a II guerra mundial. De acordo com Oksana Boruszenko (1995), os primeiros imigrantes que desembarcaram no Brasil eram da Galícia, região ocidental da Ucrânia.

A imigração dos ucranianos para o Brasil foi motivada pelas imposições do Czarismo da Rússia e Ucrânia Oriental, e o abuso de poder dos senhores feudais do ocidente, ou seja, estavam sobre grande opressão política e religiosa. Sendo assim, partiram em busca de liberdade, melhores condições de vida tanto econômica como social.

O território ucraniano estava sob o domínio da Rússia e do Império Austro-Húngaro, e a religião católica da Ucrânia estava reduzida à região da Galícia, sob domínio austríaco. A igreja sofria perseguições da Rússia (ortodoxa), e as condições de vida eram precárias, devido à fraca industrialização, apesar de que, a partir de 1880, na Ucrânia, tem início um surto industrial, cujo capital era, na maioria, estrangeiro, sendo este um motivo para a morosidade do progresso no setor” (HORBATIUK, 1989).

A chegada dos imigrantes no estado do Paraná

De acordo com Boruszenko (1995), os primeiros imigrantes ucranianos que chegaram ao Paraná foram oito famílias vindas da Galícia, instalando-se próximo ao município de Palmeira, entre Curitiba e Ponta Grossa, onde fundaram a colônia de Santa Bárbara. A segunda fase da imigração ocorreu no início do século XX devido ao cunho político que se encontrava na Ucrânia, onde estes imigrantes foram chamados pelo Governo do estado do Paraná para trabalhar em obras públicas. Por fim Boruszenko (1995) relata que após a Segunda Guerra Mundial emigraram mais de 200 mil ucranianos, refugiados políticos, que lutaram contra os russos e eram exilados para a Alemanha durante o nazismo em parte da Ucrânia.

A imigração ucraniana e o processo de colonização no município de Roncador – PR

No processo de colonização do município de Roncador os colonos-posseiros também estavam presentes, em 1923 chegaram as primeiras famílias ucranianas ao local, estes partiram de Guarapuava como Comissão Exploradora de Terras, tendo a missão de abrir o terceiro “Picadão”, “os caminhos primeiramente eram trilhas, picadas em matas fechadas, com muitos obstáculos como rios, rochas, subidas inclinadas, que dificultavam a vida dos tropeiros” (Steca e Flores, 2002, p.17), ou seja, ainda não havia um trecho que ligava Guarapuava, Campo Mourão e Mato Grosso. Quando passavam pela região acampavam próximos a um rio, que a noite com as ventanias formava um ronco alto em meio a copa dos pinheiros e a queda d’água, a partir disso deram o nome ao rio de Roncador, que mais tarde em julho de 1960, passou a ser o nome da cidade. (HISTÓRICO DE RONCADOR, 1986, p. 3).

Queda D’agua que originou o nome do município de Roncador
Fonte: http://wibajucm.blogspot.com.br/2011/06/roncador-nasceu-de-um-rio.html.

O município de Roncador localiza-se na microrregião Centro – Oeste do Estado do Paraná limita-se ao norte com os municípios de Luisiana e Iretama, ao sul com Palmital e Mato Rico, ao leste com Nova Tebas e ao oeste com o município de Nova Cantu. De acordo com o IPARDES (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social), tendo como fonte os dados divulgados em 28 de agosto de 2015 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) estima-se que a população atual do município é de 11.065 habitantes.

Localização do município de Roncador no Estado do Paraná.

Os desbravadores, ainda no ano de 1923, começaram a colonização do município, que se estendeu até o ano de 1925, onde aos poucos a densa mata e os pinheirais foram dando lugar a pequenas plantações e criações de suínos. As famílias que ali chegaram trouxeram consigo sua cultura, idioma, costumes e seu rito, implantaram na colônia de Roncador suas heranças trazidas da Ucrânia. (HISTÓRICO DE RONCADOR, 1986, p. 3)

A Ucrânia é um país repleto de tradições, artes e costumes, os imigrantes trouxeram consigo grande parte deste acervo cultural, como forma de preservar sua história em seu novo modo de vida. Destacam que buscam com estas tradições trazer um novo colorido á terra que os acolheu e lhes serviu de nova pátria. De acordo com Arroyo (1994), nós seres humanos somos culturais, nos construímos como tal em nosso processo de formação e humanização. Sermos sujeitos culturais não é algo acidental à nossa condição humana.

Evidencia-se que os descendentes de ucranianos, vindos para o município de Roncador no momento da sua colonização, conseguiram estabelecer suas representações e traços culturais na configuração espacial da região, sendo visivelmente identificados. Essa cultura proporcionou elementos que foram primordiais e determinantes para que o município de Roncador construísse sua identidade cultural atrelada à presença e atuação dos descendentes de ucranianos na região.

O desejo desta comunidade é manter a sua cultura e, sobretudo, a sua religiosidade nos moldes em que foram criados. Para tanto, é preciso ensinar o pouco que sabem e, como eles mesmos dizem, “não abandonar a terra-mãe.”.

REFERÊNCIAS

ARROYO, M, G. Depoimento. Revista Educação em Revista UFMG, v. 1, n. 32, p. 25-42, set. 1994.
BORUSZENKO, O. Os ucranianos. In: Boletim informativo da casa Romário Martins. 2. ed. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, v. 22, n. 108, out. 1995.
_______. Caderno estatístico do município de Roncador. Roncador: Prefeitura Municipal de Roncador. Livreto impresso, 2016.
CIUPA, E. Roncador terra da fé. Livreto impresso, 2002.
HORBATIUK, P. Imigração Ucraniana no Paraná. Porto União: Uniporto, 1989.
PREFEITURA DE RONCADOR. História, pioneiros e atualidades. Roncador: Prefeitura Municipal de Roncador. Livreto impresso, 1986.
ZANELATTO, C. Quando Os Padrões São Símbolos. Revista Clichê, v. 1, n. 23, p. 1-14, jun. 2013.



Autora: Ana Flavia Slobodjan dos Santos

Acadêmica do 4º ano do curso de Fonoaudiologia da UNICENTRO – Campus/Irati – PR

Participou como orientanda voluntária da Profª . Drª. Loremi Loregian-Penkal (DELET/Irati) com o projeto intitulado “A cultura ucraniana e sua trajetória no município de Roncador – PR”, nos anos de 2015 e 2016, trabalho pertencente ao Programa Institucional de Iniciação Científica - PROIC, da UNICENTRO,  tendo como apoio a Fundação Araucária.
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