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4 | AS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DA LÍNGUA UCRANIANA E SUA
PRESENÇA E IMPORTÂNCIA NA COMPOSIÇÃO DA IDENTIDADE ÉTNICA DA
COMUNIDADE DE RONCADOR – PR


Como já destacado, as manifestações culturais do povo ucraniano estão,
intrinsecamente, ligadas à religião. Preservar a cultura tem relação com a preservação
da religião e vice-versa. Por isso, é tão importante para os descendentes de
ucranianos manterem a língua, pois esta é e está ligada ao patrimônio cultural desta
descendência.
Os ucranianos falam uma língua própria, de origem eslava, que se assemelha
ao russo e ao polonês. Dentre os descendentes desses imigrantes que vivem hoje
no Paraná, muitos ainda utilizam a língua ucraniana entre si, e mesmo dentre os
que não dominam a língua certas expressões ainda são vastamente utilizadas
no cotidiano. É por isso que ela desempenha um papel decisivo na formação da
individualidade e identidade de cada um dos seus falantes e, ao mesmo tempo, do
costume nacional de um povo.


É na e pela língua que cada comunidade de falantes contextualiza e categoriza

a realidade extralinguística. Mas o caminho do mundo real para os conceitos
e, posteriormente, para a sua expressão verbal varia de povo para povo,
resultando em quadros linguísticos e conceptuais bastante distintos. Tal situação
explica-se pelas diferenças na história e nas condições de vida de cada nação,
e pelas especificidades do desenvolvimento das suas consciências coletivas.
(PLIÁSSOVA, 2007, p. 1).


A Ucrânia não apresenta um cenário linguístico simples, e a prova disso é
que em grande parte do seu território, nas suas mais diversas regiões e nos seus
diferentes ambientes sociais surge, ao lado das línguas russa e ucraniana, uma
formação linguística peculiar deste país – o surzhik.


A definição mais exata de surzhik é a de uma língua mista, que, na sua versão

clássica, concilia em si a pronúncia e a estrutura gramatical próprias da língua
ucraniana com o léxico oriundo da língua russa. É claro que o vocabulário do
surzhik varia bastante de acordo com os espaços geográficos, havendo um maior
número de vocábulos de origem russa nas regiões mais a sul e a oriente. Nas
zonas mais ocidentais, é notória a diminuição do número desses vocábulos e o
aumento do número de palavras provenientes da língua ucraniana. (PLIÁSSOVA,
2007, p. 3).


Em 1989, o Ucraniano foi proclamado a única língua oficial da República, mas a
legislação previa as condições de funcionamento da língua russa, que nunca deixou
de ser utilizada. É também a língua de muitos ucranianos residentes em outros
países, nomeadamente nas sete Federações da Rússia, na Moldávia, na Polônia,
na Eslováquia, na Romênia, na Hungria, na República Checa, na Alemanha, em
Portugal, no Brasil, no Canadá e nos EUA. (PLIÁSSOVA, 2007, p. 4).

Os imigrantes, após fixarem-se em Roncador, reavivaram a cultura ucraniana
na localidade, buscou-se de geração a geração até os dias atuais a manutenção
da língua ucraniana, mas não conseguiram preservá-la totalmente devido às
miscigenações entre as etnias existentes, e pelo uso da língua oficial do Brasil,
o português. A língua ucraniana foi preservada por meio de instituições religiosas,
educacionais e pela imprensa. Em regiões rurais, o ucraniano continua sendo a
língua dominante de inúmeras famílias.

Diante disso, Roncador apresenta um cenário sociolinguístico complexo
que propicia o contato das crenças e atitudes relacionadas a essas línguas e a
seus usuários, já que tal cenário favorece manifestações tanto positivas (prestígio
linguístico) quanto negativas (desprestígio linguístico) frente aos falares locais.
Goffman (1963, p. 6) vê a categorização dos indivíduos como algo necessário
ao convívio social, mas alerta que é essa mesma categorização que está na base da
estigmatização, ou seja, da atribuição de uma característica vista como discrepante
– e negativa – com relação aos atributos considerados naturais, normais e comuns
do indivíduo. No âmbito da linguagem, o estigma relacionado a uma língua ou
variedade linguística pode levar os falantes a pararem de usá-la, colaborando para a
substituição da língua ou variedade desprestigiada por uma de maior prestígio.

Aguilera (2008) destaca que a língua não está desvinculada de seu contexto
social, principalmente na sua condição de aspecto constituidor da identidade de
determinado grupo étnico. Decorre daí que, “na maioria das vezes, ao caracterizar
um grupo ao qual não pertence, a tendência é o usuário fazê-lo de forma subjetiva,
procurando preservar o sentimento de comunidade partilhado e classificando o outro
como diferente” (AGUILERA, 2008, p. 106). Afinal, é a língua que simboliza os limites
que separam o “nós” e os “outros”, uma vez que a língua que falamos identifica
nossa origem, nossa história, nossa cultura e o grupo a que pertencemos.

5 | CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir deste estudo, evidenciamos que os descendentes de ucranianos,
vindos para o município de Roncador no momento da sua colonização, conseguiram
estabelecer suas representações e traços culturais na configuração espacial da
região, sendo visivelmente identificados. Essa cultura proporcionou elementos que
foram primordiais e determinantes para que o município de Roncador construísse sua
identidade cultural atrelada à presença e atuação dos descendentes de ucranianos
na região.
Constatamos que a igreja do rito ucraíno-católico opera como um centro
preservador da cultura e da língua ucraniana e que esse rito surgiu da necessidade
de asseverar os costumes, as crenças e a religiosidade dos colonos de descendência
ucraniana.
De acordo com as pessoas consultadas, nativas de Roncador, o desejo da
comunidade é manter a sua cultura e, sobretudo, a sua religiosidade nos moldes em
que foram criados os seus pais. Para tanto, é preciso ensinar o pouco que sabem e,
como eles mesmos dizem, “não abandonar a terra-mãe”.

Referências

Fonte: Letras, Linguística e Artes: Perspectivas Críticas e Teóricas 3

Atena editora 2019

Ivan Vale de Sousa (Organizador)


Capítulo 2 a 10.

A CULTURA UCRANIANA E SUA TRAJETÓRIA NO MUNICÍPIO DE RONCADOR – PR

Ana Flávia Slobodjan dos Santos

Loremi Loregian-Penkal

DOI 10.22533/at.ed.0551909102
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